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A Geada Negra - Coffe Mais

Você sabe o que foi a Geada de 1975 no Paraná?

A história de hoje é cravada no dia 18 de julho, com a Geada de 1975 no Paraná. Já que se trata de um episódio com marca histórica no Brasil. Porém, sem motivos para celebrações. Foi nesse dia que os ventos gelados disseminaram o café do Paraná e mudou toda a história do café no Brasil: a Geada Negra.

Esse é um fenômeno natural que congela a plantação. Dessa forma, o resultado é a morte de qualquer planta que estiver pela frente. Por isso, a geada de 1975 no Paraná trouxe grande impacto para o cultivo do café no Brasil.

A destruição da lavoura no Paraná com a Geada Negra

Em resumo, essas geadas acontecem quando a umidade do ar fica baixa e, consequentemente, há perda radiativa (ou seja, de calor) intensa. O resultado é um resfriamento absurdo do ar. Assim, a lavoura fica totalmente queimada. Isto é mortal para a plantação. 

A Geada Negra no Paraná

E foi exatamente isso que ocorreu com a Geada Negra de 1975. Esse foi um dos episódios mais tristes do Paraná. Mas com importante representatividade histórica. Por isso, não pode ser ignorado. Tanto que essa é uma curiosidade sobre o café, que gerou reflexos em todo o país.

Os produtores contam sobre a queima das lavouras. As geadas chegaram na madrugada. Contudo, bem diferente da ideia da nevada branquinha que encanta aos olhos. Em contraste o impacto visual foi de horror. Assim como o cheiro que invadiu cada espaço da lavoura. 

Isso porque, a lavoura e a terra estavam pretas. Ou seja, totalmente queimadas pelo vento gelado da madrugada. Entenda a seguir o que foi a Geada Negra, no Paraná.

Curiosidade sobre o café. Conheça mais da história da lavoura brasileira!

Em 1975, o Paraná era um estado gigante na produção de café. Nesse contexto, assumia grande parte da produção nacional. Portanto, era reconhecido pela alta produtividade brasileira.

Essa produção relevante surgiu por meio da estrada de ferro construída pelos ingleses no Paraná. Inclusive, essa foi a rota que impulsionou a economia local. Assim, o caminho que levou o café para o Paraná ficou mais curto.

Lembrando que a porteira de entrada do café no Brasil foi a região Norte. O estado do Pará recebeu os primeiros grãos de café em 1721. Aos poucos, a cultura do cultivo foi disseminada por todo o país. 

Só para ilustrar a força do Paraná antes da Geada Negra, 50% da produção nacional era do estado. Ao todo, eram 1,8 milhão de hectares de café e 20 milhões de sacas colhidas.

Em comparação, em 2010, o Paraná produziu 943 mil sacas, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral). Para se ter ideia, atualmente, o Brasil produz 60 milhões de sacas de café.

O extermínio das lavouras do Paraná

Mas o café no Paraná foi disseminado do dia para a noite? Sim. A Geada Negra dizimou as lavouras paranaenses (no sentido literal da afirmação). Dessa forma, entre os tópicos relacionados às curiosidades sobre o café, as geadas surgem como parte relevante da história. 

Além disso, o impacto social no estado foi grave. De acordo com Ricardo Batista, presidente da Cooperativa de Produtores de Cafés Certificados e Especiais do Norte Pioneiro do Paraná (Cocenpp), o principal desafio como filho e neto de produtor foi a falta de renda.

A tristeza da Geada Negra

Tudo isso gerou sérios problemas a sociedade. Além de desemprego e dificuldades financeiras, as pessoas ficaram perdidas. A solução encontrada por muitos agricultores foi o abandono das terras e das casas.

O processo foi tão intenso que um município que, na época, tinha 36 mil habitantes, hoje em dia, conta com 11 mil. Assim, o êxodo rural reduziu em aproximadamente 60% da população paranaense.

A nova produção de café no Brasil

Aliás, esse fenômeno de migração chegou a muitos estados. Minas Gerais é um exemplo disso. Tanto que basta passear por algumas lavouras mineiras para encontrar origens do Paraná entre os sotaques de “uai” e “sô”, por exemplo.

Inclusive, foram muitos desses agricultores que subiram do Paraná e participaram da construção do Cerrado Mineiro. Em síntese, eles participaram ativamente da profissionalização do cultivo de café no estado mineiro. 

Além da migração para Minas Gerais, outros estados, como o Mato Grosso, receberam agricultores que fugiram das geadas no Paraná. O presidente da Concenpp, Ricardo Batista, lembra-se da tristeza da Geada Negra.

Ele viveu toda a destruição na pele e os efeitos da crise em casa. A noite gelada faz parte de uma das grandes curiosidades sobre o café e trouxe incertezas.

Os impactos da Geada Negra

Segundo Ricardo, o principal desafio (como filho e neto de produtor) foi a falta de renda e confiança para um novo plantio. A maioria dos produtores tinha o hábito de cultivar somente o café e não sabiam o que fazer. Por isso, muitos sofreram e deixaram tudo para trás.

A Geada Negra também impactou diretamente a família de Cornélia Gamerschlag. De acordo com ela, a memória sobre os ventos gelados, que devastaram as lavouras, ainda é forte. 

A história de Cornélia com o café começou com o avô, que desbravou o Brasil. Ele saiu da Suíça e chegou ao país em 1922. A fim de viver do plantio, ele escolheu o interior de São Paulo. Mais precisamente próximo à cidade de Marília. Mas, em 1942, o destino mudou e ele comprou terras no Paraná. 

As lavouras queimadas no Paraná

Cornélia herdou a fazenda da família e cresceu nas lavouras. Todas as brincadeiras de menina tinham o café como pano de fundo. Segundo ela, o terreiro que secava o café era a pista para a bicicleta. E brincar nas tulhas (caixa usada para armazenar o café) a melhor escolha do dia.

Por consequência, o perfume do café tem o ritmo da memória afetiva de dona Cornélia. Ela explica que a vida sempre esteve ligada ao cheiro do café, que chegava e secava no terreiro. 

O cheiro podre da Geada Negra

No entanto, no dia 18 de julho de 1975, o cheiro gostoso ganhou novos odores. A lembrança sob o ponto de vista de uma adolescente tem uma narrativa triste. “No dia seguinte à geada, eu senti o cheiro de podridão no ar. As folhas ficaram pretas com a queima da geada. Quando o sol apareceu, o cheiro ruim tomou conta da fazenda. A cor era desoladora. Tanto que minha experiência se resume ao impacto visual e olfativo.”

Quando os produtores acordaram, a terra e a lavoura estavam pretas, devido à queimada da geada. O frio era intenso. Os ventos cortavam a pele. Visto que os termômetros registravam -3,5ºC no abrigo, mas -9ºC do lado de fora intensificado pelos ventos. 

Saiba a curiosidade sobre o café das lavouras do Paraná após a geada.

Mas o que fazer com o cafezal? O pai de Cornélia não sabia. Logo após o acontecido, ele se perguntava se continuaria plantando café ou se arrancaria tudo. Essas, inclusive, foram as indagações de todos os produtores daquela época. Contudo, a resposta não surgia.

Até porque, foi apenas com o passar das semanas que eles entenderam a dimensão do impacto da Geada Negra. Assim, o episódio passou a fazer parte da série de curiosidades sobre o café no Brasil, de um dia que a natureza se voltou contra a lavoura.

Qual a sua curiosidade sobre café?

Infelizmente, o marco histórico simbolizou perda.  Ao todo foram mais de 300 mil hectares de café arrancados, de acordo com dados do Instituto Brasileiro do Café (IBC). Tanto que muitos abandonaram a atividade da cafeicultura. Isso por estarem descapitalizados. Outros pela necessidade de erradicar a lavoura.

O impacto social foi imensurável. Então, depois de aproximadamente 20 anos, os produtores locais encontraram um caminho especial para a produção de café no Paraná.

Segundo o presidente da Concenpp, Ricardo Batista, o processo de reinvenção do café no Paraná veio com o café especial. Tudo mediado pelo trabalho de produtores dedicados, mas com o foco na colheita de grãos cereja. 

Ricardo Batista dos Santos, presidente da Cocenpp
Café de qualidade após o caos. Saiba tudo sobre essa curiosidade sobre o café

Ricardo afirma que, atualmente, o processo de reinvenção do cultivo do café no Paraná é reconhecido no mundo inteiro. Essa reviravolta nasceu por meio da união dos produtores. De acordo com ele, a parceria com órgãos públicos foi fundamental para todo esse processo. Tudo isso com o apoio do Sebrae, Senar, Iapar e sindicato patronal rural.  

De acordo com Ricardo, por meio do Sebrae, foi possível a conquista da Indicação Geográfica (IG). Sendo que o selo possibilitou o acesso ao mercado internacional e exposição dos café no mundo. Além disso, a IG trouxe valorização ao trabalho do produtor.

A estruturação das lavouras do Paraná 

Assim, o cafeicultor reestruturou o processo de secagem, com a compra de lavadores, despolpadores e secadores. O resultado veio com cafés cheios de sabor.

A produtora Cornelia Gamerschlag, da Fazenda Palmeira, é um exemplo disso. Tanto que na história dela é possível aplicar a sabedoria popular “do limão à limonada”. Na verdade, como ensinou o Tio Chico Pereira aqui: “não foi do limão… foi do café mesmo [risos]”.

O apoio técnico potencializou o café do norte pioneiro do Paraná. Por certo, o trabalho com a Associação dos Cafés Especiais do Norte Pioneiro (Acemp) ajudou muito, como conta a produtora Cornélia.

A união dos produtores e os grãos especiais de café

O projeto organizado pelo Sebrae do Jacarezinho focou no potencial do café especial. Foi assim que com aprendizado, troca de experiências, consultoria e certificação, as mudanças foram feitas nas fazendas.

Dona Cornélia conta que a topografia do Paraná favoreceu o cultivo dos grãos especiais. E ela focou no projeto. Atualmente, a fazenda da produtora em Palmeira produz aproximadamente 180 hectares de café especial. Mas tudo só foi possível com mudança de pensamento.

 

Dona Cornélia: resistência e pensamento especial

A curiosidade em torno do café especial tem trazido novos consumidores. A produtora afirma que ele chegam preocupados com a rastreabilidade dos grãos e processos. Uma vez que o consumidor valoriza o trabalho do produtor, o consumo tem outro sentido.

O consumo interno de café especial

Sem dúvidas a visão da produtora experiente se comprova com o aumento do consumo interno. Prova que chega com os números publicados pela pesquisa da Rabobank. Dona Cornélia, assim como a grande maioria dos produtores de café especial brasileiro, endossa o levantamento.

Ela acredita que como ocorre no mundo do vinho, o café especial entrou na rota da valorização. “Eu tenho clientes de todas as faixas etárias e classes sociais. Sendo assim, posso afirmar que não se trata apenas de um consumo para o público de jovens e executivos. Hoje há democratização no consumo de um café melhor”, conta Cornélia.

Na Fazenda Palmeira, Cornélia também trabalha com turismo de experiência. Assim, o cliente entende a relação afetiva do brasileiro com o café especial. Dessa forma, ela entende com pé na terra mais curiosidades sobre o café e a importância dos grãos brasileiros. “Por isso, quando a pessoa conhece toda a cadeia, dificilmente, ela voltará a tomar café tradicional”.

Hoje, cerca de 70% do café produzido no norte pioneiro do Paraná é exportado. Sendo que 30% fica para o consumo interno. Os grãos especiais representam a reinvenção do produtor paranaense. Isto é, são reconhecidos em todo mundo pela alta qualidade. 

Trajeto de grãos marcados por uma história de resistência. Já que esses produtores paranaenses com pensamento especial não desistiram do café. Assim muitos produtores paranaenses se encontram no cultivo cuidadoso.

Dessa forma, eles reescreveram o capítulo triste da história do estado. Agora, com bons sorrisos, ótimos grãos e, assim, retomaram as rédeas da rota do café. Saiba aqui outras saber mais histórias que rodeiam às xícaras de café?

 

Curiosidade sobre café: a fazenda Palmeira, também trabalha com turismo de experiência